Demos a 153 psicólogas um catálogo com mais de 70 jogos terapêuticos. Elas escolheram quase sempre os mesmos cinco.
Em 126 planos terapêuticos montados dentro de uma plataforma de atendimento infantil online, aparece um padrão que diz mais sobre a clínica com criança do que sobre software.
Redação · 31 de agosto de 2026
Quando uma psicóloga monta o plano terapêutico de uma criança dentro da Ludicare, ela escolhe à mão quais recursos vai usar nas próximas sessões. Não é sugestão de algoritmo. É decisão clínica, uma criança de cada vez.
Foram 126 planos montados assim. O catálogo à disposição tem mais de 70 jogos, e a maior parte dele — 36 títulos — trabalha funções executivas: atenção sustentada, memória operacional, controle inibitório. É a categoria mais numerosa, de longe.
Não é ela que lidera.
Jogo das Emoções57
Roda das Emoções40
Mapa da Família36
Caixa das Preocupações32
Escudo Pessoal26
Nenhum dos cinco tem placar. Nenhum mede desempenho. Nenhum produz um número que se mostre para os pais no fim do mês.
Os cinco são instrumentos de nomeação: dar nome ao que se sente, desenhar quem mora na casa, guardar a preocupação dentro de uma caixa, decidir o que entra no escudo. São ferramentas de linguagem — para uma criança que ainda não tem a linguagem.
Tendo à mão dezenas de exercícios cognitivos mensuráveis, as profissionais brasileiras escolheram, com folga, os recursos que servem para a criança dizer o que sente.
Isso não é um dado sobre tecnologia. É um dado sobre o que a clínica infantil faz quando ninguém está olhando — e sobre o que uma ferramenta de atendimento online precisa entender para não atrapalhar.
Não era para ficar bonito
Quando teve a ideia, no início de novembro de 2025, Rafael Cardoso — desenvolvedor, casado com a psicóloga infantil que ficava hora e meia no escritório para dar 45 minutos de sessão — achava que estava resolvendo um problema de aparência.
“Antes de construir, eu achava que o problema era somente deixar mais bonito. Que fosse algo mais atraente”, ele diz. Foi pesquisar e entendeu que estava mirando errado.
Fui entendendo que essa ferramenta serviria justamente para aumentar o engajamento. Aumentando o engajamento do paciente dentro da sessão, a terapia em si tende a fluir.
Rafael Cardoso, fundador da Ludicare
A primeira busca dele foi para não construir nada. Procurou o que assinar. Achou ferramentas genéricas de teleconsulta e nenhuma pensada especificamente para atender criança. Foi aí que sentou no sofá, às onze da noite, e pensou numa plataforma onde o vídeo e os recursos lúdicos estivessem no mesmo lugar — a profissional só escolhendo qual usar.
A videochamada que não aguentava 4G
A primeira coisa construída foi a videochamada, e quase foi a última.
“Perguntei para muitas pessoas como seria possível fazer isso, e muitos falavam que não tinha como”, ele conta. Ele fez mesmo assim — e a versão que saiu era ruim. Baseada em tecnologia antiga, caía quando a família estava no 4G, que é como boa parte do Brasil se conecta.
Depois de mais de dois meses de trabalho, ele considerou abandonar o projeto.
Nesse momento eu achei que realmente deveria abandonar. Fazia mais de dois meses que a gente estava pesquisando e montando, e eu falei: poxa, não vai ter como. Realmente todo mundo tava certo.
Rafael Cardoso
A ferramenta unia vídeo e mesa de jogos, mas o vídeo não servia. Ele foi conversar com mais gente, pesquisar mais, testar outras arquiteturas. A infraestrutura de vídeo foi refeita do zero — hoje a Ludicare roda servidor de vídeo próprio, e é isso que sustenta as sessões pela internet do celular.
A primeira que pagou
A validação não veio de amiga nem de conhecida. Veio de uma psicóloga que assinou por conta própria, sem relação nenhuma com quem construiu.
Ela disse que precisava de algo que aumentasse o engajamento e que a ajudasse a atender com mais qualidade uma paciente que morava em outro estado. E disse mais uma coisa, que não estava no plano de ninguém: que pagava horas e horas de sublocação de consultório e que ia começar a migrar para o online — não para trabalhar menos, mas para que sobrasse margem.
“Além de aumentar o engajamento, a gente também estava ajudando as profissionais a terem um salário mais digno”, diz Rafael. Foi a partir dessa conversa que a economia de sala entrou no argumento — depois, não antes.
O que os números mostram hoje
Dados fornecidos pela Ludicare · agosto de 2026
153
profissionais que já realizaram ao menos uma sessão
1.585
sessões concluídas
610
crianças cadastradas em atendimento
51
crianças que passaram da 8ª sessão
11
idade mediana das crianças atendidas
70+
jogos no catálogo clínico
A curva conta a história inteira: uma sessão em outubro de 2025, 109 em março de 2026, 381 no pico de maio. Três quartos das crianças atendidas têm entre 3 e 12 anos, e a idade mediana é 11 — mais velhas do que a intuição sugere, o que faz sentido: é a faixa em que a criança já articula, mas ainda não sustenta uma hora de conversa olho no olho com um adulto.
Por que criança
A escolha de atender só o público infantil foi deliberada, e custou mercado. Terapia de adulto é maior, mais fácil de vender e não exige que nada seja construído: um link de videochamada resolve.
“A gente pensou em fazer uma coisa mais ampla, para o atendimento adulto”, diz Rafael. Não fez. A esposa dele, psicóloga, sempre trabalhou com criança. E o casal tem cinco filhos.
Nós decidimos focar justamente onde ninguém estava olhando, porque talvez não seja a grande mina de ouro. Não é só onde está o maior ganho, mas onde está o maior impacto.
Rafael Cardoso
O que a Ludicare é, em uma frase
Uma plataforma brasileira onde a sessão de psicologia infantil acontece inteira: o vídeo, mais de 70 jogos terapêuticos que a criança e a profissional manipulam ao mesmo tempo, na mesma tela, o plano terapêutico e o registro clínico. Sem alternar abas, sem compartilhar tela de PDF, sem sala alugada por hora.
Não substitui a formação de ninguém, não promete resultado clínico e não é melhor que o presencial. É o que existe para a criança que mora longe, para a família que não consegue levar, e para a profissional que decidiu que o consultório dela não precisa ter endereço.
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