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Consultório · Custos

A psicóloga alugava a sala por duas horas. A sessão durava 45 minutos.

O custo do consultório infantil não está na sessão. Está no que acontece antes dela — e é por isso que a conta nunca fecha.

Jéssica é psicóloga infantil. Todo dia ela avisava a mesma coisa antes de sair: “vou atender, são 45 minutos”.

E voltava depois de uma hora e meia.

Não era atraso, e não era conversa com os pais. Era preparação. Antes de cada criança entrar, ela montava tudo — os jogos separados na mesa, a atividade da vez, o plano A, o plano B e o plano C, porque criança de sete anos derruba um plano em quatro minutos. Depois que a criança saía vinha o registro, a evolução, o que contar para a família.

A sessão eram 45 minutos. O trabalho eram noventa.

A sala, no entanto, se aluga por hora.

Essa é a conta que quase nenhuma psicóloga infantil faz antes de assinar um contrato de sublocação: você não paga a sala pelo tempo que atende. Paga pelo tempo em que precisa dela — e boa parte desse tempo é você sozinha, separando material, num espaço que cobra por você estar ali.

Com adulto, o desequilíbrio é pequeno: chega, senta, conversa, sai. Com criança, o desequilíbrio é a regra. O setting infantil é material — e material precisa ser montado, guardado, e montado de novo na próxima.

Vale fazer a conta com número real. Em Jundiaí, no interior de São Paulo, sala clínica mobiliada por hora começa em torno de R$ 28 nos espaços de coworking terapêutico — e esse é o piso, o valor de quem compra pacote grande de horas.

Uma criança atendida, portanto, não custa 45 minutos de sala. Custa duas horas: R$ 56. Dez crianças por semana são R$ 560 — quase R$ 2.400 por mês, e metade desse dinheiro é gasto com a psicóloga sozinha na sala, separando peça de jogo.

É dinheiro pago para guardar material.

Quem fez essa conta primeiro não foi uma consultoria. Foi o marido dela, no sofá de casa, às onze da noite de uma terça-feira de novembro de 2025.

Não era para ficar bonito

Quando teve a ideia, no início de novembro de 2025, Rafael Cardoso — desenvolvedor, casado com a psicóloga infantil que ficava hora e meia no escritório para dar 45 minutos de sessão — achava que estava resolvendo um problema de aparência.

“Antes de construir, eu achava que o problema era somente deixar mais bonito. Que fosse algo mais atraente”, ele diz. Foi pesquisar e entendeu que estava mirando errado.

Fui entendendo que essa ferramenta serviria justamente para aumentar o engajamento. Aumentando o engajamento do paciente dentro da sessão, a terapia em si tende a fluir. Rafael Cardoso, fundador da Ludicare

A primeira busca dele foi para não construir nada. Procurou o que assinar. Achou ferramentas genéricas de teleconsulta e nenhuma pensada especificamente para atender criança. Foi aí que sentou no sofá, às onze da noite, e pensou numa plataforma onde o vídeo e os recursos lúdicos estivessem no mesmo lugar — a profissional só escolhendo qual usar.

A videochamada que não aguentava 4G

A primeira coisa construída foi a videochamada, e quase foi a última.

“Perguntei para muitas pessoas como seria possível fazer isso, e muitos falavam que não tinha como”, ele conta. Ele fez mesmo assim — e a versão que saiu era ruim. Baseada em tecnologia antiga, caía quando a família estava no 4G, que é como boa parte do Brasil se conecta.

Depois de mais de dois meses de trabalho, ele considerou abandonar o projeto.

Nesse momento eu achei que realmente deveria abandonar. Fazia mais de dois meses que a gente estava pesquisando e montando, e eu falei: poxa, não vai ter como. Realmente todo mundo tava certo. Rafael Cardoso

A ferramenta unia vídeo e mesa de jogos, mas o vídeo não servia. Ele foi conversar com mais gente, pesquisar mais, testar outras arquiteturas. A infraestrutura de vídeo foi refeita do zero — hoje a Ludicare roda servidor de vídeo próprio, e é isso que sustenta as sessões pela internet do celular.

A primeira que pagou

A validação não veio de amiga nem de conhecida. Veio de uma psicóloga que assinou por conta própria, sem relação nenhuma com quem construiu.

Ela disse que precisava de algo que aumentasse o engajamento e que a ajudasse a atender com mais qualidade uma paciente que morava em outro estado. E disse mais uma coisa, que não estava no plano de ninguém: que pagava horas e horas de sublocação de consultório e que ia começar a migrar para o online — não para trabalhar menos, mas para que sobrasse margem.

“Além de aumentar o engajamento, a gente também estava ajudando as profissionais a terem um salário mais digno”, diz Rafael. Foi a partir dessa conversa que a economia de sala entrou no argumento — depois, não antes.

O que os números mostram hoje

Dados fornecidos pela Ludicare · agosto de 2026

153
profissionais que já realizaram ao menos uma sessão
1.585
sessões concluídas
610
crianças cadastradas em atendimento
51
crianças que passaram da 8ª sessão
11
idade mediana das crianças atendidas
70+
jogos no catálogo clínico

A curva conta a história inteira: uma sessão em outubro de 2025, 109 em março de 2026, 381 no pico de maio. Três quartos das crianças atendidas têm entre 3 e 12 anos, e a idade mediana é 11 — mais velhas do que a intuição sugere, o que faz sentido: é a faixa em que a criança já articula, mas ainda não sustenta uma hora de conversa olho no olho com um adulto.

Por que criança

A escolha de atender só o público infantil foi deliberada, e custou mercado. Terapia de adulto é maior, mais fácil de vender e não exige que nada seja construído: um link de videochamada resolve.

“A gente pensou em fazer uma coisa mais ampla, para o atendimento adulto”, diz Rafael. Não fez. A esposa dele, psicóloga, sempre trabalhou com criança. E o casal tem cinco filhos.

Nós decidimos focar justamente onde ninguém estava olhando, porque talvez não seja a grande mina de ouro. Não é só onde está o maior ganho, mas onde está o maior impacto. Rafael Cardoso

O que a Ludicare é, em uma frase

Uma plataforma brasileira onde a sessão de psicologia infantil acontece inteira: o vídeo, mais de 70 jogos terapêuticos que a criança e a profissional manipulam ao mesmo tempo, na mesma tela, o plano terapêutico e o registro clínico. Sem alternar abas, sem compartilhar tela de PDF, sem sala alugada por hora.

Não substitui a formação de ninguém, não promete resultado clínico e não é melhor que o presencial. É o que existe para a criança que mora longe, para a família que não consegue levar, e para a profissional que decidiu que o consultório dela não precisa ter endereço.

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